O Jornalismo da #VazaJato e as suas Lições

Havia um nítido clima de tensão na última edição do programa Roda Viva, levada ao ar pela Tv Cultura, na segunda-feira, 2 de setembro. Com raras exceções, as vozes dos jornalistas tinham tons alterados, as inquirições, de todos eles, eram de ataque, da busca por uma falha, um deslize   que fosse nas respostas firmes, rápidas e elucidativas do jornalista Gleen Greenwald, entrevistado da vez.

Para uma plateia de centenas de milhares de telespectadores, audiência barulhenta que participava do programa pelas redes sociais, o que ficou patente naquela entrevista, foi, de um lado,  a revelação clara da arquitetura do jornalismo brasileiro comercial, e, do outro, um modo de fazer jornalismo calcado no ideário clássico da profissão, cujas lições são as da investigação dos fatos até as últimas consequências; a preservação dos   seus preceitos éticos, a defesa intransigente da pluralidade, da imparcialidade e do sigilo das fontes.

Mais do que tensão, a meia dúzia dos jornalistas presentes na bancada experimentava medo e revolta. Medo por se verem expostos a uma implacável máquina demolidora dos ataques, das tentativas da prática jornalística do premiado Gleen Greenwald, revolta por sentirem estar sendo desmantelada de maneira célere, a fabulosa história sobre a Lava Jato e as suas conquistas, divulgada, alimentada, acarinhada  e cultivada com esmero pela mídia brasileira durante os últimos cinco anos.

Para compreendermos a situação de indigência vivida pelo jornalismo brasileiro, que está vendo ir pelo ralo, um dos acontecimentos jornalísticos mais bem construídos dos últimos tempos, há que se retornar às duas últimas décadas do século XX, quando a mídia do país alcançou um formidável progresso técnico, ingressando de vez no paradigma tecnológico. Transformaram-se completamente as rotinas do fazer jornalístico. O progresso técnico, porém, imprimiu à prática dos profissionais, uma produção voltada ao sensacionalismo, à informação de consumo ligeiro, a primazia de um jornalismo declaratório, esvaído de todos os seus processos qualitativos: apuração, investigação, pluralidade e imparcialidade das coberturas.

Os altos custos do progresso técnico da mídia, exigiram também, dos seus proprietários, uma proximidade cada vez mais nítida entre a construção de uma opinião de consenso sintonizada com os interesses do capital nacional e norte-americano, forjando uma leva de jornalistas fazendo coberturas homogêneas, publicando releases e dando voz a declarações sem um naco qualquer de apuração, repercussão, interpretação.

A Lava Jato e os seus heróis, não teria vivido sua era de ouro, não fosse a cumplicidade, quase conversão da mídia brasileira. Mas eis que o jornalista Gleen Greenwald saca da sua premiada ousadia e coragem, desce aos porões da Força Tarefa, e de lá exuma uma realidade obscura, tecida por corrupção, clientelismos, parcialidade e aferição criminosa de lucros.

O Roda Viva da última segunda-feira foi uma tentativa vã dos jornalistas, para desqualificar o trabalho que eles próprios não quiseram fazer. Foi um esforço medíocre e vergonhoso para salvar seus heróis e a gigantesca fábula da Lava Jato. Foi um apelo barulhento para tentar ocultar as falhas de um jornalismo realizado impunemente a serviço da criminalização, da difamação de pessoas, do cultivo do ódio e da interferência criminosa nos destinos da política do país. Foi um débil grito para tentar calar os resultados nefastos da sua cobertura: O hediondo país governado por Jair Bolsonaro.

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(Este post foi publicado hoje, em minha coluna impressa do Jornal A União)

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