O Dia do Fogo

As árvores sabem quando o dia do fogo vem chegando. A árvore que fica perto da rodovia pressente em suas fibras, em seus galhos, o trepidar dos pneus dos caminhões, o calor das vozes alteradas, o aprontamento e o disparo das tochas, a velocidade do fogo em busca da floresta.

A árvore lança para as companheiras, através do entrelaçar de suas raízes, a única mensagem de alerta: Está vindo. É mais quente que o sol. Vai nos matar.

Não há pânico. Especialistas da paciência, as árvores mantêm-se eretas, sorvendo as últimas carícias do vento, os velhos cheiros da mata milenar.

O fogo chega. As árvores vão rachando em bando, como espigas de tempo abertas em posições esquisitas, crestando aos pedaços.

Morrem de vagar, numa agonia coletiva, desmentindo sílaba por sílaba o velho poema: “Por que as árvores morrem de pé”? Morrem caindo juntas, suas últimas palavras aprisionadas no fundo das raízes, intenções de abraços desfeitas em brasas, o fogo rasgando suas fibras, seus anéis de tempo, as feridas dos insetos, as frágeis ninhadas de arbustos agarradas aos troncos ardentes.

Deformam-se, as árvores, numa espécie de procissão demoníaca, para baixo, sempre para baixo, lá onde não há Deus, senão a língua vermelha do espírito do mal.

Viram cinza esvoaçante, abraçam-se em fumaça cheirosa, abatem-se sobre a terra de toda sua vida, mas não há descanso, não há paz, não há lugar onde acalentar galhos caídos, queimando.

As árvores não rezam nem pedem clemência, apenas queimam em estalos que já não são aquele vozear de galhos abraçados, raízes ocupadas em recolher da terra o alimento vital.

Apenas queimam, as árvores, em estalos e espasmos medonhos e esbarram à pressa na terra que pega fogo.

A risada medonha do fogo lambe o solo da lembrança das árvores, espalha cinza como curativo escuro por sobre as crateras abertas. Num último frêmito, , as árvores vomitam aos bocados, o carbono guardado em suas reservas milenares. Vomitam sobre a terra, e o jorro volta surpreso a um céu vermelho e fumacento.

Tocos quase mortos de febre ainda resistem, agarrados ao chão, vigias da sanha de queimar, destruir. Testemunhas do incêndio, os tocos quase mortos de febre escutam o riso cínico, a galhofa dos homens maus.

Trementes de febre, finalmente os tocos se lembram da velha oração de todos os dias, crepitando aos borbotões por entre suasfendas. A prece da cura para as rachaduras milenares, a oração calma de engendrar anéis de tempo, o ofício do socorro para as árvores tristes, pelos golpes de motosserras, pela sanha dos carunchos…

Os tocos esgotam suas orações, quando já tisnados e feitos em carvão.

O silêncio é medonho agora. A terra cansada, então dá-se conta, por entre os rescaldos: Não há mais a ternura pesada das árvores vivas sobre o solo, senão a implacável nudez, feita da solidão das escaras, rachaduras   cobertas de cinza.

 

(Este post foi publicado em minha coluna impressa do jornal #AUniao, em 30 de agosto).

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